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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

DOMINGO À TARDE

Caminhando domingo à tarde, senti que seus olhos me acompanhavam, não sabia se era pra mim, não conhecia ninguém aqui, olhei discretamente e você disfarçou.
Andei mais um pouco e você atrás de mim. Achei estranho, tanta gente e fui eu a escolhida. Depois de algumas voltas e troca de olhares, resolvi voltar, eu à frente. Seu olhar estava lá, eu andava, você andava, eu parava e você parava, eu corria e você corria e assim chegamos até minha casa. Abri o portão e senti que queria entrar. Fazer o quê? Nessa situação chamei e você entrou, meio sem graça, assim olhando, devagar, cabeça baixa. Eu desconfiada com seu olhar, você olhava, como se quisesse dizer “cuida de mim”.
Ofereci então um pouco de água e um pouco de leite, assim meio sem jeito, convite aceito, estava com fome o coitado. Andou pela sala, cozinha,  tudo  bem devagar, calado, nem um barulhinho se ouvia, apenas andava.
Descuidei de você, apenas um pouco e quando fui ver o que fazia, estava você dormindo  bem à vontade no sofá, estava tão à vontade que tive a impressão que meditava. Os dias foram passando, você foi ficando e assim fiquei acostumada com sua presença sempre me olhando. Falar não falava de jeito nenhum, nossa comunicação era feita de olhares, ele entendia tudo, era muito cuidadoso e carinhoso.
Acostumei tanto com ele à minha volta que tudo que fazia ele participava, quando chegava de viagem ele estava lá  me esperando, vinha correndo cumprimentar. Fazia  uma festa, pulava no colo, pedindo carinho, era seu jeito meigo de agradar.
Um dia ficou na rua, arrumou uma briga, chegou em casa mancando, todo machucado, cuidei dele, passei remédio, dei banho, enfaixei sua perna, ficou amuado vários dias, até que sarou. Não tomou jeito, à noite voltou para a rua, mas nunca mais se machucou. Como ele não falava, eu imagino que ia namorar na vizinhança.
Quando eu ia ao mercado, ele ia junto até a esquina e ficava ali, esperando a minha volta, me seguia com os olhos. E assim foi que Abraão virou meu gato de estimação. Tinha educação era gato nobre, de sangue azul, participou de todos os momentos de minha casa, até que um dia foi chamado teve que partir....
Vieram outros bichos: o cachorro Quincas, os hamister Baby e Júnior, o trio de ratos brancos Porrael, Smelito e Petevi. Estava esquecendo, o cachorro Lord foi achado na rua, ficou três dias e foi desenganado, estava com leishmaniose (eu acho que essa doença é a Aids de cachorro), todos foram chamados. Hoje tenho o gato Fausto, alegre, brincalhão muito teimoso e sem educação, de nobreza não tem nada, mas saudades mesmo eu tenho do Abraão, esse sim era bicho de estimação... especial.



Publicada no jornal Folha da Região na coluna Entrelinhas em 11/01/2004 / Araçatuba SP

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

AMOR DE ALMA




          Tenho uma amiga solteirona, daquelas que vão deixando para lá e a vida vai passando, nunca se casa. Essa já está com mais de cinqüenta anos e isso não a deixa nem um pouco preocupada.
Outro dia enquanto tomávamos o café da tarde, jogando conversa fora, ela começou a falar sobre seus amores. Conversa daqui, e pergunta de lá, o papo foi rolando.
Contou que teve vários namorados durante sua vida. Teve um que queria casar e ela amou muito, mas sua família não aprovou não deixando que ela se casasse, coisa de preconceito, religião ou raça, alguma coisa assim...
Segundo ela, as pessoas se casam quando encontram o amor de alma e de corpo. Deve ser a tal da alma gêmea. Também disse que é difícil encontrar, mas que todo mundo precisa de um amor de corpo e alma. Papo muito interessante esse, alma gêmea, todo mundo quer encontrar a sua.
Contou que tem um namorado de alma, aí eu quis saber como era isso. Foi me explicando que quando as almas se encontram, não é necessário estar juntos.
O amor de alma dela mora na Alemanha. Dificilmente se encontram, mas, como ela mesma diz, amor de alma não precisa se encontrar, pois as almas já estão juntas para sempre.
Ela no Brasil, ele na Alemanha, mas trocam juras de amor, fazem poesias, arte e contam suas histórias por correspondência, um distante fisicamente do outro, e assim vão vivendo felizes.
Fiquei encantada com essa história. Como pode uma pessoa ser tão feliz tendo um amor de alma tão distante? Eu, sinceramente, nunca tinha pensado dessa maneira.
A conversa foi fluindo, ela foi falando e explicando com aquele brilho no olhar, de mulher apaixonada e, de repente, me diz: “Tenho outro namorado aqui no Brasil”.
Levei um susto e perguntei “Como assim? Você tem outro namorado de alma aqui no Brasil?”
Estava confusa com aquele relato. Ela acabou de me dizer que é difícil encontrar um amor de alma, imagine dois!
Calma e naturalmente, a amiga me explicou que tem um namorado apenas para sexo. Aquilo era novo para mim, nunca ouvi alguém dizer que tinha um namorado de alma e outro de sexo.
Sabiamente minha amiga explicou, apesar de sua simplicidade. O namorado de sexo é para satisfazer o corpo e não a alma. Todas as pessoas precisam de amor de alma e de sexo e não podem satisfazer só a alma. É isso?


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VIDA DE NOVELA



Dona de casa é sempre dona de casa, faz todo dia seu servicinho e fica por ali, naquela de ver se já tem poeira nos móveis, se alguém sujou os copos, se o chão está limpinho, se vai chover e molhar as roupas que estão no varal, se já está na hora de arrumar o lanche.

Tem um horário que pra mim é sagrado é a hora da novela, não perco um capítulo. Num desses dias tomei meu banho e fui para a televisão.

Já perceberam, adoro novelas, elas me fazem sonhar, viajar, entro em suas fantasias, conheço pessoas (só pessoas ricas, bonitas, inteligentes e famosas) me apaixono pelo galã, mas na próxima novela já esqueci aquele e já arrumei outro.

Vocês entendem coisas de quem assiste novelas todos os dias. Às vezes chego a sonhar com o próximo capitulo. Penso...gostaria tanto de ter uma vida de novela... e o último capítulo então, vou confessar eu sofro, choro, é choro mesmo fico muito emocionada com final feliz dos principais personagens.

Estava eu tão envolvida nos meus personagens e... toca o telefone. Que susto, era meu marido me propondo algo diferente naquele dia. Esqueci a novela, meus galãs e tudo mais, também não era pra menos, é hoje que vou viver minha noite de novela.

Nossa, meu coração quase saiu pela boca, as pernas tremeram e quase perdi a voz, achei até que tinha entendido errado, na dúvida não perguntei nada aceitei rapidamente, vai que pergunto e ele muda de idéia.

Me arrumei toda, caprichei no perfume até batom passei, dei uma olhada no espelho e escutei a buzina do carro. Era ele, coloquei o sapato dei uma olhada básica no espelho e fui.

Entrei no carro feliz da vida, também mais de 20 anos de casamento e aquele convite em plena segunda-feira e no meio da novela, coisa totalmente fora da rotina, o que será que deu nele?

Ele me elogiou e fomos, conversinha amena, nem prestei atenção no caminho. Estava tão encantada com aquele convite, vira aqui, vai ali e paramos. Olhei, assim, meio espantada e falei: é aqui?

Ele respondeu com a maior naturalidade do mundo: é sim é aqui que se faz o melhor pastel da cidade.
Gente, confundi tudo, pensei que ele tinha me convidado para ir ao motel, mas era para comer pastel, isso é que dá ficar em casa fantasiando com novelas. Nunca mais vou viver vida de novela, essa só funciona na televisão, vida real é outra coisa.



Crônica publicada no Jornal Folha da Região - Araçatuba SP

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Acidente na rua

Foi um encontro entre a calçada e a rua. Conversa calma e na faísca de um isqueiro, um descuido, fui atropelada. Foi tudo muito rápido, nem percebi o que havia ocorrido. Levei um susto e caí deitada. Foi como um trator passando em cima de mim, um frio na barriga, não conseguia entender o que se passava.
  Você foi logo saindo para cuidar do trânsito, desviando atenção dos que por ali passavam, não queria que ninguém percebesse o que estava acontecendo. Fiquei ali estatelada, não conseguia me mexer, o coração disparou, as pernas tremeram, ninguém para me socorrer, tentei gritar, a voz também não saia.
Não teve jeito, foi juntando gente de todo lado, diziam "quem fez isso com a moça", nem prestou socorro, que cara medroso, fugiu, alguém anotou a placa? Uns diziam que tinham visto como tudo começou, outros davam palpites. Eu tinha vontade de explicar o que havia acontecido, mas continuava ali imobilizada, sem reação.
Uns perguntavam se havia médico no local, para prestar os primeiros socorros, outros iam além, diziam não mexam com ela, pode ter quebrado a coluna (que horror). Essa cidade está mesmo ficando violenta, a moça deve ter sido assaltada. Não imaginei que ia ter tanto falatório por tão pouco, esse povo fala muito...
Alguém queria chamar o resgate, eu ali amolecida, parada, não conseguia dizer que não precisava de ajuda, aquilo passaria, eu não estava machucada, só assustada com a colisão. Foi um acidente feio!
De repente alguém me reconheceu e disse ela é da Academia de Letras, não é caso de resgate, vamos chamar o presidente, ele deve saber o que fazer nesse caso. Alguém lembrou que o presidente da Academia de Letras está de férias, foi viajar e a academia está fechada. Não deixou ninguém de plantão?
Fui voltando ao normal, as pernas ainda tremiam, mas já conseguia me movimentar. Juntei as minhas coisas, recolhi minhas palavras que haviam se espalhado pelo local e saí, pois tudo o que queria era fugir dali.
Que adrenalina vivi aquele dia, mas não se assustem, não aconteceu nada, foi só um encontrão que me deram na calçada, num momento em que estava carregando um monte de livros, poesias e crônicas que voaram por todos os lados, posso chamar assim de acidente de palavras... coisas de quem escreve.







Publicada em 25/01/06 no jornal Folha da Região na coluna Entrelinhas / Araçatuba SP