quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Acidente na rua

Foi um encontro entre a calçada e a rua. Conversa calma e na faísca de um isqueiro, um descuido, fui atropelada. Foi tudo muito rápido, nem percebi o que havia ocorrido. Levei um susto e caí deitada. Foi como um trator passando em cima de mim, um frio na barriga, não conseguia entender o que se passava.
  Você foi logo saindo para cuidar do trânsito, desviando atenção dos que por ali passavam, não queria que ninguém percebesse o que estava acontecendo. Fiquei ali estatelada, não conseguia me mexer, o coração disparou, as pernas tremeram, ninguém para me socorrer, tentei gritar, a voz também não saia.
Não teve jeito, foi juntando gente de todo lado, diziam "quem fez isso com a moça", nem prestou socorro, que cara medroso, fugiu, alguém anotou a placa? Uns diziam que tinham visto como tudo começou, outros davam palpites. Eu tinha vontade de explicar o que havia acontecido, mas continuava ali imobilizada, sem reação.
Uns perguntavam se havia médico no local, para prestar os primeiros socorros, outros iam além, diziam não mexam com ela, pode ter quebrado a coluna (que horror). Essa cidade está mesmo ficando violenta, a moça deve ter sido assaltada. Não imaginei que ia ter tanto falatório por tão pouco, esse povo fala muito...
Alguém queria chamar o resgate, eu ali amolecida, parada, não conseguia dizer que não precisava de ajuda, aquilo passaria, eu não estava machucada, só assustada com a colisão. Foi um acidente feio!
De repente alguém me reconheceu e disse ela é da Academia de Letras, não é caso de resgate, vamos chamar o presidente, ele deve saber o que fazer nesse caso. Alguém lembrou que o presidente da Academia de Letras está de férias, foi viajar e a academia está fechada. Não deixou ninguém de plantão?
Fui voltando ao normal, as pernas ainda tremiam, mas já conseguia me movimentar. Juntei as minhas coisas, recolhi minhas palavras que haviam se espalhado pelo local e saí, pois tudo o que queria era fugir dali.
Que adrenalina vivi aquele dia, mas não se assustem, não aconteceu nada, foi só um encontrão que me deram na calçada, num momento em que estava carregando um monte de livros, poesias e crônicas que voaram por todos os lados, posso chamar assim de acidente de palavras... coisas de quem escreve.







Publicada em 25/01/06 no jornal Folha da Região na coluna Entrelinhas / Araçatuba SP